O conceito de “probióticos” é relativamente recente, mas eles fazem parte da história humana há milhares de anos, estando presentes em coisas bem cotidianas para nós, a exemplo do pão, vinho e produtos lácteos, como o queijo e iogurte. Seu significado vem do grego e quer dizer “a favor da vida”.
Basicamente, muito da curiosidade que existe em relação a esses “bichinhos” que, uma vez ingeridos, podem beneficiar a saúde, é que eles são bactérias. E sempre vai ser um pouco estranho o fato de que engolindo microrganismos vivos podemos equilibrar o nosso organismo, não é?
Mas, primeiro, não são simples bactérias. E, segundo, bactérias dentro do nosso corpo nem sempre são sinal de doença. Os probióticos contam com grandes propriedades funcionais e para serem classificados como tal, precisam atender a uma série de pré-requisitos. Devem, por exemplo, ter origem humana, serem estáveis (porque eles precisam ser processados para o consumo) e capazes de influenciar positivamente no metabolismo.
A questão é como essas bactérias boazinhas atuam ajudando a pele? Bem, o corpo humano é cheio de fungos, vírus e similares e a superfície cutânea segue esse mesmo padrão.
Para se ter uma ideia, a pele é habitada por mais de 100 espécies diferentes, com mais de 1 milhão de microrganismos por centímetro quadrado.
Assim, tanto a pele como o intestino possuem um rico ecossistema cheio de componentes biológicos vivos, que se fazem presentes em diferentes locais. Em ambos, também é delicada a relação existente entre o hospedeiro (ou seja, a pessoa que ingeriu os probióticos) e esses microrganismos. O que vai diferir é o seguinte: cada um terá uma microbiota (termo que se refere a essa coleção de microrganismos) para chamar de sua.
Por outro lado, a microbiota da pele sofre influência da microbiota intestinal, pois, quando a balança do intestino está em desequilíbrio, ou seja, quando há mais microrganismos ruins do que bons (o que é conhecido como disbiose), ele fica cheio de bactérias que, por exemplo, não vão auxiliar em nada o sistema imunológico.
Desse modo, o corpo fica mais aberto a doenças, a radicais livres que envelhecem a pele, espinhas e inflamações de todo tipo. Se você quiser conhecer mais sobre esses seres vivos que estão instalados em nós e têm tamanha importância para a nossa pele, sem que nós sequer tenhamos sido apresentados a eles, basta seguir conosco até o final deste artigo.
- O que são probióticos
- Um perfil muito pessoal
- Como o intestino afeta a pele
- Probióticos e acne
- Probióticos e envelhecimento
O que são probióticos
Vivem no corpo humano comunidades complexas de microrganismos. O povoamento deles é absolutamente gigantesco (e necessário): cada milímetro quadrado de um intestino saudável deve ter cerca de 10 bilhões de microrganismos para funcionar corretamente.
A questão é que nada vivo é capaz de viver isolado em seu meio, sem que haja uma interação. E, entre eles, ocorrem as chamadas relações ecológicas: os efeitos que os organismos, em uma comunidade, têm um sobre o outro. Tais relações podem ser benéficas ou não.
Os microrganismos representariam 1 a 3% da massa corporal total e, para um adulto de 80 kg, isso significa 0.8 a 2.4 kg de bactérias.
Dentro dessa dinâmica, uma dessas relações é o comensalismo, quando uma espécie está em busca de alimento e aproveita-se de outra para obter esse recurso. É justamente assim que essas comunidades microbianas se relacionam com o organismo humano: de forma comensal.
Então, na prática, como seria isso? A atuação dos probióticos se daria promovendo um aumento das bactérias boas no intestino e, ao mesmo tempo, impedindo o crescimento das chamadas “patógenas”, ou seja, aquelas que podem provocar doenças. Além disso, ajudariam na absorção de vitaminas e contribuiriam com o sistema imunológico.
Os probióticos começaram a ser utilizados no tratamento de problemas intestinais, a exemplo de diarreia, gastrite e síndrome do intestino irritável, mas atualmente têm amplo uso. Já se sabe, por exemplo, que podem ser aplicados em qualquer ambiente onde exista uma microbiota normal, bem como a pele.
Por isso, hoje é crescente a utilização deles em cosméticos, mas, em geral, são usados na alimentação, através da ingestão de produtos fermentados, ou em fórmulas farmacêuticas, geralmente em sachês ou cápsulas.
Um perfil muito pessoal
Sabemos que cada indivíduo possui um organismo único e altamente dinâmico. Além disso, não é novidade para ninguém que cada corpo humano está sujeito a inúmeros fatores que vão o diferenciando ainda mais, ao longo da vida, resultando em uma contínua e maior variedade.
O mais interessante é que, em termos de genoma (ou seja, do código genético, que possui toda a informação hereditária de um ser), os humanos são 99,9% idênticos entre si, enquanto a microbiota de cada indivíduo pode ser 80-90% diferente uma da outra. Isso faz com que muitos chamem a microbiota de a verdadeira impressão digital.
Calcula-se que, na microbiota intestinal, há aproximadamente mil espécies. Embora as bactérias sejam um componente de destaque na microbiota humana, elas não são as únicas.
Hoje, a ciência acredita que várias funções digestivas foram dadas a esses “bichinhos”, conforme acontecia a evolução humana. Porém, o papel da flora intestinal é bem mais amplo, ultrapassando os limites da digestão, como veremos a seguir:
- Essa comunidade de bactérias mantém uma troca permanente com as células da parede do intestino;
- Ela interage com o sistema imunológico o tempo todo, fornecendo informações importantes;
- Age na permeabilidade intestinal (que se refere à facilidade com que as substâncias se movem através da parede do intestino), hormônios e inflamação.
Em relação aos filos, que é o termo usado na classificação científica dos seres vivos, 90% das bactérias, nos adultos, são divididas em várias formas, e com todas as diferenças e variedades entre cada corpo humano, existem semelhanças tanto na composição, como nas funções microbianas entre indivíduos saudáveis, e também quando se fala em portadores de algumas doenças. Tal fato sugere que há uma microbiota primordial para a manutenção da saúde.
Você sabia que o tipo de parto pode ser um definidor quando se fala em microbiota? Sim, pois é no momento da passagem pelo canal vaginal onde se adquire o maior número de bactérias benéficas. Pela via cesariana, o primeiro contato é com as bactérias referentes ao momento do ato cirúrgico e do ambiente hospitalar, que podem não ocasionar doenças, mas não são “normais” de se encontrar ao nascer.
Como o intestino afeta a pele
Pode parecer estranho, mas é verdade: a pele e o intestino têm muitos pontos em comum. Os dois são altamente vascularizados, possuem inúmeras populações de micróbios e atuam criando uma conexão entre a parte interna do corpo humano e o ambiente externo.
Não é à toa que há uma corrente muito forte hoje, apoiada por vários estudos, unindo o estresse excessivo às doenças de pele. O que se sabe é que essa grande população que vive no intestino pode interagir, por exemplo, com alguns hormônios, como o da felicidade (mais conhecido como serotonina) e aquele ligado à sensação de prazer e motivação (dopamina).
Seguindo essa mesma lógica, em um estudo foi observado que o uso de probióticos (do tipo lactobacillus e bifidobactérias), em humanos, diminuiu os níveis de hormônio corticoide, que é ligado ao estresse. Por outro lado, esse mesmo estudo apontou que quando a pessoa é exposta a estressores sociais (como situações de pressão e outros aborrecimentos), por apenas duas horas, isso já pode alterar o perfil da comunidade microbiana.
E não apenas isso, é grande o número de informações na atualidade provando que a microbiota do intestino pode estimular vários problemas relacionados à pele, como:
- Inflamação;
- estresse oxidativo (quando os níveis de antioxidantes não são altos o suficiente para compensar os efeitos nocivos dos radicais livres);
- conteúdo lipídico dos tecidos da pele (sendo que alterações neles estão ligadas às doenças nela e ao envelhecimento precoce);
- humor.
Um outro ponto é que os distúrbios gastrointestinais podem trazer alterações no estado da pele. Exemplo disso é a Doença Celíaca (causada pela intolerância ao glúten), que tem manifestações como pequenas bolhas que coçam; a queda de cabelo; o vitiligo; e lesões dentro da boca.
Além disso, atualmente existem indícios de que rosácea (condição que provoca vermelhidão, inchaços e até pus no rosto), psoríase e dermatite atópica (doença crônica e hereditária que causa inflamação da pele), tem relação com a chamada disbiose intestinal.
A disbiose tem a ver com o comprometimento da absorção dos nutrientes, pois o desequilíbrio de bactérias no intestino faz com que a biodisponibilidade (ou seja, a proporção da quantidade do nutriente ingerida que é absorvida e utilizada pelo corpo) não atinja o esperado.
Tomemos como exemplo o caso do zinco. Uma pessoa pode ingerir a porção ideal desse mineral, mas se o intestino estiver em estado de disbiose, ele não vai ser absorvido totalmente. E a deficiência de zinco é associada, por exemplo, a uma menor capacidade imunológica, prejuízo no metabolismo de lipídios na pele e hiperqueratose (que causa um engrossamento e secura da pele).
Outro ponto a ser notado é que sendo um ecossistema dinâmico, o microbioma da pele sofre pequenas modificações ao longo do tempo, o que é normal. Porém, algumas mudanças podem interferir realmente nessa relação, causando complicações, como uma barreira de proteção da pele menos eficiente.
Importante enfatizar, ainda, que quando se elimina ou se altera a microbiota natural do organismo, o ambiente é modificado, deixando como que um vácuo biológico, e que os antibióticos são o principal fator de alteração da flora intestinal. Isso favorece a multiplicação de microrganismos transitórios e outros agentes que causam doenças.
Probióticos e acne
Ainda que seja crescente entre os adultos, a acne é uma condição dermatológica mais frequente durante a puberdade, afetando de 85 a 90% da população em países que praticam uma dieta ocidental. Para se ter uma ideia, ela é tão presente nesse público que já existe uma corrente de dermatologistas considerando que a acne seja um processo normal do desenvolvimento. Já noutros casos, ela é enxergada como uma doença crônica, não se limitando a um período de idade específico.
A questão é que ela pode até ser comum, mas não dá para se habituar com seus impactos no cotidiano, especialmente os transtornos que causa em relação à autoestima e à vida social, por isso novas terapêuticas para isso estão sempre sendo buscadas e analisadas.
Estão envolvidos no surgimento da acne principalmente quatro mecanismos:
- produção de uma quantidade excessiva de sebo;
- o sebo excessivo se une às células mortas e fica preso à pele, podendo obstruir o “folículo piloso” – uma estrutura onde o pelo nasce;
- colonização e proliferação por bactérias (especialmente a “propionibacterium acnes”);
- como resultado disso aparece a inflamação.
A pele de adolescentes com acne, por exemplo, apresenta aproximadamente 100 vezes mais colônias de propionibacterium acnes, comparada com uma pele saudável.
Ainda que não se saiba com toda exatidão a causa da acne, muito se conhece sobre o conjunto de elementos atrelado a ela. Ciclo menstrual, tabagismo, estresse, fatores genéticos, uso de alguns fármacos, obesidade e exposição solar são alguns deles. Outro item que pode favorecer essa condição é a dieta desequilibrada.
Como exemplo disso, temos que a ingestão de poucas fibras e uma grande concentração de gorduras provocam alterações na microbiota do intestino, trazendo doenças metabólicas e inflamações na pele. Por outro lado, situações como ansiedade e depressão igualmente podem alterar essa flora, aumentando a chamada “permeabilidade intestinal”.
E você sabe do que se trata isso? É como se o intestino ficasse poroso demais, facilitando, assim, o deslocamento de toxinas para a circulação sanguínea. Essas substâncias, por sua vez, podem viajar até a derme, onde vão atuar favorecendo o surgimento da acne.
Foi assim que se sugeriu o uso do probiótico, como uma opção que pudesse auxiliar no tratamento da acne, por seus efeitos positivos na saúde intestinal, capacidade de combater bactérias que causam doenças, ajudar a função de barreira da pele e contribuir para o sistema de defesa do corpo.
Data de 1961 o primeiro relato do uso de probióticos oralmente, com essa finalidade. Um estudo feito neste ano, revelou que pacientes que ingeriram lactobacilos no tratamento da acne (principalmente a inflamatória) tiveram uma melhora em 80% dos casos.
Já a aplicação deles diretamente na superfície da pele foi testada em 1912. Nesse caso, utilizou-se o chamado “lactobacillus bulgaricus” e ele se mostrou eficaz para a redução não só da acne, mas também da seborreia. Nessa pesquisa, também se viu que o “streptococcus thermophilus” é capaz de incrementar a produção de ceramidas da pele, o que ocasionaria mais hidratação e menos inflamação.
A questão é como transformar esses microrganismos vivos em fórmulas estáveis, que possam ser passadas na pele? Esse é o desafio que vem sendo encarado pela indústria cosmética e farmacêutica, porque eles são muito sensíveis ao calor e à presença de água, por exemplo.
Mesmo assim, um dos probióticos mais comuns usados de forma tópica é o “lactobacillus plantarum”. Entre outras ações benéficas dele, está a habilidade de aumentar a resistência às bactérias ruins – é como se ele atuasse entrando em uma espécie de competição com elas.
Interessante ressaltar que existe uma confusão entre os termos probióticos e prebióticos. Embora a grafia e o som deles se pareçam muito, a diferença é grande. Os primeiros, conforme mencionamos, são bactérias que habitam e equilibram a flora intestinal. Já os prebióticos são substâncias encontradas em alimentos, que funcionam como comida para esses microrganismos do bem.
Assim, diferente dos probióticos, os prebióticos não se referem a microrganismos vivos. Eles agem sendo fermentados pela microbiota do intestino, por isso promovem o crescimento de microrganismos benéficos quando ingeridos, contribuindo para o equilíbrio da flora intestinal.
Probióticos e envelhecimento
Vimos até aqui como esses seres minúsculos podem colaborar fortemente para o que acontece em nosso corpo. Sua missão na pele é abrangente e o envelhecimento não é uma exceção, até porque com o passar dos anos, por exemplo, há uma redução das bactérias boas (como as bifidobactérias).
O envelhecimento ocorre por uma associação de fatores, que, juntos, promovem uma série de mudanças na pele, como perda de colágeno, elastina, entre outros, que têm a função de sustentação, elasticidade e firmeza.
Uma das maiores preocupações sobre isso é a radiação ultravioleta (RUV), já que a exposição a ela é capaz de ser um “gatilho” para alterações que impactam o sistema imune, e os lactobacilos podem ser uma alternativa de proteção.
Em um estudo feito com camundongos foi observado que o uso oral de um probiótico chamado “lactobacillus acidophilus”, conseguiu diminuir a formação de rugas finas induzida por exposição à radiação UVB.
Já se demonstrou, inclusive, que a suplementação com probióticos (do tipo lactobacillus johnsonii), em associação com carotenoides (uma família de alimentos pigmentados, principalmente amarelos, alaranjados ou avermelhados), agiria resguardando a pele do sol. A mesma combinação também poderia colaborar para a melhora de uma condição de pele muito temida, sobretudo entre as mulheres: o melasma.
Os carotenoides podem ser encontrados na laranja, milho, abóbora, tomate e cenoura, por exemplo.
O uso de probióticos também pode ser benéfico em outros aspectos referentes ao envelhecimento da pele. Isso porque já se sabe que tanto fatores intrínsecos (como genética, estado dos hormônios e reações causadas por radicais livres), quanto extrínsecos (como exposição à radiação solar, tabaco e estresse), famosos por adiantar o “relógio da pele”, podem ser influenciados pelo uso desses microrganismos.
Por outro lado, a pele saudável possui um pH levemente ácido (entre 4,2 a 5,6), o que é muito importante, pois impede a colonização de bactérias ruins e também colabora para que a pele possa se manter rica em umidade. Porém, após os 70 anos, o pH cutâneo cresce significativamente.
E como isso modifica a pele? Algumas enzimas conseguem quebrar mais facilmente as moléculas dela (como colágeno, por exemplo) quando o pH está num nível de 7 ou mais. Assim, qualquer desarmonia na microbiota que leve a um aumento de pH, fará com que ocorra um estímulo da atividade dessas enzimas, e elas vão trazer aumento na descamação da pele e quebra de moléculas importantes.
Acredita-se que o uso de produtos com ação probiótica é extremamente benéfico, pois eles são capazes de produzir moléculas ácidas, mantendo o ambiente adequado, e, por conseguinte, as enzimas da nossa pele, responsáveis pelo envelhecimento, não serão estimuladas. Assim, caberia a eles restaurar o pH normal, e, consequentemente, fazer com que retornem aos níveis mais próximos da pele jovem e saudável.